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NOMELINI, Paula Christina Bin. Associações operárias mutualistas e recreativas em Campinas (1906-1930).

25 Novembro 2019
Autor:   Bruno Milanese Laurenti

NOMELINI, Paula Christina Bin. Associações operárias mutualistas e recreativas em Campinas (1906-1930). Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Campinas, SP. 2007. 230p.

 

Bruno Milanese Laurenti

 

A dissertação de mestrado da historiadora Paula Nomelini, defendida na UNICAMP em 2007, é um estudo das associações operárias mutualistas e recreativas em Campinas durante o período de 1906 a 1930. O principal objetivo de sua pesquisa foi investigar o funcionamento dessas associações, o seu papel na mobilização operária campineira, os espaços sociais que construíram e a maneira como possibilitaram aos trabalhadores negociarem melhores condições de trabalho em suas vidas.

No desenvolvimento de sua dissertação, Nomelini realiza um levantamento bibliográfico destacando outros autores que realizaram pesquisas dentro do mesmo recorte temporal em diferentes localidades sobre relações de trabalho, associativismo, sindicalismo e movimentos sociais que ajudam a explicitar os conceitos abordados ao longo da tese. A autora aponta que a percepção da classe operária como plural, heterogênea e em constante formação, permitiu que as manifestações associativas ganhassem importância nos estudos sobre a sua constituição. A cultura associativa existente entre os trabalhadores brasileiros tornou-se um campo importante para investigar as práticas e rituais desenvolvidos em diferentes organizações fornecendo indícios sobre o modo como os trabalhadores percebiam o mundo e a si mesmos.

O cotidiano administrativo dessas associações campineiras revela a forma como os trabalhadores criavam identidades e os mecanismos adotados para se posicionarem no debate político vigente. Dentro do campo de estudo da história social do trabalho, sua pesquisa e investigação do histórico de atuação dessas organizações nos possibilita a compreensão sobre o modo de articulação dos trabalhadores e a diversidade da atuação social para atingirem determinados objetivos. O texto está estruturado em três capítulos: I - A cidade de Campinas no período de 1906-1930, II - As associações mutualistas e recreativas em Campinas e III - As relações entre as associações e outros setores da sociedade.

No primeiro capítulo, a autora se dedica a traçar um panorama sobre a contextualização histórica da cidade de Campinas dentro do recorte temporal sobre o qual está centrado seu estudo, observando características socioeconômicas, políticas, culturais e a forma como a sociedade se estruturava a partir das relações de trabalho, levantando problemas como a desigualdade social, as condições de precariedade e exploração e a ausência de direitos e garantias trabalhistas. Se preocupa também em realizar uma vasta análise do desenvolvimento industrial em Campinas descrevendo o processo de fundação e consolidação de diversas indústrias na cidade e na região durante as décadas finais do século XIX e início do século XX.

Entre os anos de 1870 e 1886, Campinas adquiriu relevante papel econômico em um complexo cafeeiro paulista que se estruturou a partir do trabalho escravo e imigrante e do uso das máquinas de beneficiar, tornando-se a capital agrícola da província e apresentando uma diversificação do capital na instalação de ferrovias, bancos e de companhias no setor de serviços urbanos, tais como a Companhia Campineira de Iluminação a Gás (1872), Companhia Campineira de Carris de Ferro (1881), Companhia Telefônica Campineira (1884), Companhia de Águas e Esgotos (1887) e a Companhia Mac-Hardy (1875).

A autora aborda o trabalho realizado por Ema Camillo em Guia histórico da indústria nascente em Campinas: 1850-1887, de 1998 sobre o histórico de estabelecimentos industriais em Campinas no período, analisando 34 fábricas. Nomelini aponta que no período final do império, Campinas registrava a presença de 140 operários na Arens (fabricação de maquinário agrícola), 190 operários e aprendizes na Lidgerwood (oficina de fundição, serraria e pintura), 150 operários e aprendizes na Companhia Mac-Hardy (oficinas de fundição, pintura, ferraria e carpintaria), além de 45 operários na Casa Mac-Hardy. Os empregados da Companhia e Casa Mac-Hardy possuíam o Club Mac-Hardy, um clube recreativo, literário e beneficente.

Nesse contexto de industrialização, o operariado surgiu como um setor que também buscava se posicionar no debate político da época. Em maio de 1891, os trabalhadores campineiros fundaram o Club do Partido Operário, uma sociedade representante das classes trabalhadoras, reunindo 460 sócios após um ano de atividade. Este fato já indica que o reconhecimento mútuo de trabalhadores em diferentes profissões era algo solidificado na década de 1890. Também é possível perceber que os operários entendiam os seus interesses e objetivos como opostos aos de outras classes sociais, indicando a formação de um setor empresarial que se opunha ao bem-estar comum ao defender seus privilégios e interesses econômicos.

No segundo capítulo, a autora estabelece as características do objeto de estudo e procura responder aos questionamentos que motivaram sua pesquisa. Busca compreender quais foram as condições e necessidades que se apresentaram naquele momento e que levaram os trabalhadores a construírem organizações autônomas, coletivamente administradas e que se articulavam com base no princípio do auxílio mútuo. As questões envolvendo a formação de identidades, o sentimento de pertencimento e o reconhecimento social coletivo também merecem uma atenção especial neste capítulo e oferecem informações importantes para a compreensão do tema em perspectiva interseccional associando raça, etnia, nacionalidade, gênero, sexualidade e classe.

A pesquisa de Nomelini possibilita observar que, no início do século XX em Campinas, várias organizações operárias conviviam simultaneamente. As associações mutualistas poderiam se relacionar com outras sociedades reivindicatórias, oferecer benefícios, promover colaborações e empréstimos de materiais e até participar de assembleias para eleição e posse do conselho fiscal de outra entidade parceira. Essa realidade permitiu que vários trabalhadores se associassem em diferentes sociedades, construindo uma rede de relacionamentos que possibilitava uma ampla representatividade social.

A instabilidade no trabalho prevalecia nas relações entre trabalhadores assalariados e empregadores, no começo do século XX, em Campinas. A doença, a invalidez ou a morte poderiam significar a inserção da família em um estado de extrema pobreza e precariedade. A solução não passava por uma legislação social ou por iniciativas dos patrões, que utilizavam sua influência no meio político para explorar e oprimir ainda mais os empregados. A solução enxergada pelos trabalhadores se originava na iniciativa particular, na sua organização em associações que forneciam o pagamento dos auxílios, o acesso a médicos ligados a sociedade, a farmácias credenciadas e até internações em hospitais.

As associações operárias recreativas também eram espaços de lazer que procuravam funcionar de acordo com os valores defendidos pela sociedade campineira. As associações recreativas ofereciam bailes, saraus, festividades e reuniões, possuíam ou contratavam bandas, músicos, disponibilizavam aulas de música, de danças, convidavam oradores para discorrer sobre a associação ou temas relevantes em datas comemorativas, ofereciam jogos e apresentavam peças teatrais entre os associados.

O terceiro capítulo traz discussões em torno das relações entre as organizações mutualistas e os poderes institucionais do governo e do judiciário em esfera municipal, estadual e federal, demonstrando os embates, as regulamentações estabelecidas em dispositivos constitucionais como leis, resoluções e decretos, as lutas travadas e os conflitos entre as classes dominantes e os trabalhadores. Entre as discussões trazidas pela autora está a promulgação do decreto nº 4682, de 24 de janeiro de 1923, que se tornou conhecido como Lei Eloy Chaves, o marco embrionário da política de seguridade e previdência social no Brasil e que mobilizou discussões nas entidades de cooperação mutualista.

Outra discussão importante que é levantada neste capítulo é a maneira como as organizações interagiam com movimentos operários e sindicais de maior envergadura e outras associações da sociedade, compartilhando experiências, impulsionando lutas e exercendo uma influência local nas articulações em torno de interesses em comum.

Possivelmente para grande parte dos trabalhadores associados, o ingresso em uma associação mutualista não se dava, exclusivamente, em função de sua capacidade para concretizar os benefícios propostos. Ele também reconhecia de quais grupos poderia fazer parte e qual associação poderia oferecer uma representação social mais valorizada. Isso demonstra a construção de uma identidade, pois os trabalhadores compreendiam que sua memória estaria sendo compartilhada e relacionada às identidades que definiam as associações que integrou.

Esta colocação reforça a necessidade de olhar os fatores contextuais que explicam a carência geral dos trabalhadores e como isso leva a diferentes tipos de resultados culturais e políticos. A investigação histórica sobre os trabalhadores campineiros associados em sociedades mutualistas e recreativas demonstra como os sujeitos históricos articularam as relações econômicas, sociais, culturais e políticas criando definições e sentidos para as associações que fundavam, destacando as singularidades da experiência vivida em Campinas no início do século XX.

Entre as associações mutualistas e recreativas abordadas por Nomelini em sua pesquisa de mestrado está a Sociedade Humanitária Operária de Campinas, uma associação de caráter mutualista que fornecia auxílio-doença, pensões e auxílio-funeral aos associados, tendo sido fundada por trabalhadores de diferentes profissões e etnias em 18 de setembro de 1898. A maioria dos estudos sobre associações mutualistas e recreativas utiliza como fontes os estatutos, os relatórios administrativos, os dados estatísticos, as notícias ou convocações publicadas na imprensa e a legislação elaborada para regulamentar o funcionamento dessas organizações ou os serviços nas áreas em que atuavam. Os livros de atas, de contabilidade e de matrícula produzidos por essas associações são raramente utilizados, devido a dificuldade de acesso a esse tipo de documentação ou sua fragmentação. Nomelini utilizou boa parte da documentação do conjunto disponível no acervo do CMU.


Este texto foi produzido como fruto das atividades de Estágio Supervisionado do Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – Unicamp, ministrada pelo Prof. Dr. Aldair Carlos Rodrigues, e realizadas sob supervisão dos técnicos do Centro de Memória-Unicamp.

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